Um vazio nos braços e no coração - O luto (in)visível das perdas gestacionais

Sempre ouvimos por todos os lados que a morte é a única certeza da vida. Mesmo tendo essa consciência, não é nada fácil vivenciar um momento de partida. No caso das perdas gestacionais e neonatais, outro fator faz com que lidar com isso se torne um grande dilema: naquele momento, o casal cria a expectativa da vida, do nascimento, de uma nova história começando.

A psicóloga Renata Duailibi é especialista no assunto e lida com grande frequência com histórias de casais que passaram pelo difícil momento das perdas gestacionais e neonatais. Ela, que esteve presente no programa "Encontro com Fátima Bernardes", da TV Globo, fez parte também do documentário "O Segundo Sol", que trata com delicadeza a respeito do tema.

Segundo a psicóloga, ainda existe um tabu em relação ao luto, que embora seja chamado de invisível, é mais do que visível. Por meio de grupos e rodas de conversa, a especialista auxilia casais que passam por esse drama a superar essa dor e transformá-la em motivação. O mais gratificante é o sorriso dos casais que chegam trazendo nos braços os seus bebês arco-íris.

            "A gente chama também do lado negro da maternidade histórias que a sociedade costuma abafar. É muito doloroso passar por essa perda e ser reconhecido pela sociedade como um casal que perdeu uma coisa muito valorosa.  As pessoas   dizem: Ah não, você é nova, pode engravidar de novo." "É só um bebê, pior seria se já tivesse nascido" - então falta mesmo um pouco de empatia por parte das pessoas compreenderem o quão sofrido pode ser a perda de uma criança, independente do tempo de gestação, do tempo de vida." - relata Renata.           

            "As recordações que tenho das semanas que passamos juntos não poderiam ser as mais felizes. São elas que me acalentam ainda hoje, me fortalecem e deixa a   certeza  que somos muito especiais, pois fomos escolhidos para gerar um anjo.

            Em contrapartida, não consigo esquecer daqueles dias de tempestade, onde em   uma consulta pré-natal não conseguimos auscultar o batimento cardíaco do nosso filho, a correria para realizar um ultrassom que confirmou a noticia, o cuidado da minha obstetra, a acolhida de quem nos amam, a dor emocional que   também era física durante a madrugada e ida para o hospital bem cedo para   iniciar a indução do parto." - relata Anelise, que perdeu o filho Samuel.

Em 2013, estimava-se que cerca de 15 a 20% das gestações eram interrompidas pelo aborto espontâneo. Mais do que uma estatística, é importante lembrar que por trás desses números existem mães e pais que tiveram o rumo de suas vidas mudadas para sempre após a perda de um filho.

O sentimento de vazio começa logo na maternidade. Do choro dos bebês recém-nascidos à enfermeira distraída que pergunta onde está o seu filho. Depois, já em casa, você decide ir ao cinema, ao supermercado, à praça... a tentativa de se distrair se torna um imenso martírio ao ver as crianças alegres brincando em todos os lados. "Você é jovem, logo vai poder ter outro filho", eles dizem. Para quem está de fora parece uma dor menor, algo que passa na medida que o tempo caminha. Mas é um filho, uma perda. 

Diminuir a dor de uma mãe que acabou de perder seu filho é desumano e a sociedade ainda não lida com a perda gestacional com a devida empatia. É dos nossos filhos que estamos falando, afinal. Afirmar e validar a existência deles é um processo doloroso, que precisa ser realizado para que consigamos seguir adiante sem maiores sequelas.

            "Não foi fácil o processo, tivemos que mexer na ferida, continuei a contagem das semanas que faltava para terminar a minha gestação, escutei muitas palavras duras de conhecidos e estranhos, passei pelas fases do luto até chegar a data provável do parto.

            O nosso tão esperado 29 de fevereiro de 2016 chegou, precisava fazer nascer, fechamos nossas agendas, ficamos o dia todo juntos, fomos a terapia e escolhemos fazer uma homenagem ao nosso filho (tatuamos juntos, eu a asa de anjo e o Luiz uma pena) e assim conseguimos fechar o ciclo.

            Após esse período queria muito uma explicação. Fui procurar todos os especialistas que poderiam responder sobre  a minha perda, mas não havia nada alterado. Eu precisava esgotar todas as possibilidades para ter a segurança em pensar no recomeço.

            Senti uma necessidade gigante de mudanças, queria estar inserida em um acompanhamento novo e com perspectivas diferentes. Fui encaminhada ao Núcleo Bem Nascer, pois gostaria de continuar a sentir essa acolhida, atenção e que fosse inserida a uma equipe que compreendesse a minha história. A Renata me indicou o Dr Renato Janone, onde me admitiu antes de engravidar,   começávamos a preparação a essa nova fase." - completa Anelise.

A escolha do nome, a decoração do quarto, o enxoval... tudo preparado para que, em breve, um novo membro chegasse à família. E como voltar para a rotina normal? Como ver tudo aquilo construído durante a gestação ir perdendo o sentido? Como lidar com todos aqueles planos que não saíram do papel?

            “Quando a gente passa por uma perda e a gente enluta, as outras pessoas enlutam com a gente. Você conheceu e criou um vínculo com aquela pessoa que está partindo. No caso de uma perda gestacional, ninguém criou um vínculo com o bebê, só a mãe, o pai e a família. " -  conta Rafaella, astróloga e idealizadora do documentário “O Segundo Sol” sobre como encarou a partida do pequeno Miguel.

O casal Talita e Thiago esteve com a psicóloga Renata Duailibi no programa "Encontro com Fátima Bernardes", na TV Globo falando sobre as perdas gestacionais e bebês arco-íris. Eles aguardavam a chegada da Manuela com ansiedade e muita preocupação pois sabiam da possibilidade de um problema renal, conferido ainda na gravidez.

Ao nascer, uma notícia: Manuela teria apenas mais trinta minutos de vida. Sem esperanças, o papai apenas fez o sinal da cruz em sua testa com os olhos marejados. Foi ai que a pequena guerreira começou a surpreender, ficou corada, respirou sem ajuda de aparelhos e foi para a UTI Neo Natal.

            "Penso que aqui começou a melhor viagem da nossa vida como pais. A nossa felicidade era tanta que mesmo na situação em que ela estava, com muitas pessoas sensibilizadas, rezando e orando, cada qual com suas crenças e religiões, podíamos estar perto de você, te beijar, pegar no colo."

            "Foram os 9 melhores dias de nossas vidas, sem dúvida. Seguravamos na mão dela, rezávamos... até o seu batizado na UTI Neo Natal conseguimos fazer.

Em um determinado momento, Talita e Thiago receberam a ligação do hospital pedindo que eles fossem até lá. Foi a pior sensação possível e ali eles descobriram que a pequena princesa havia tido uma parada cardiorrespiratória e não havia resistido.

            "A tristeza ainda é grande e, espero que ela se transforme em uma linda lembrança, um divisor de águas em nossas vidas." comenta Thiago.

            "Após a perda da nossa filha, eu e meu marido não sabíamos o que fazer. Nosso mundo acabou no momento em que recebemos a notícia. Todos os nossos sonhos de cuidar e de criar nossa filha estavam perdidos." completa Talita.

Existem também os casos de pacientes que dão à luz e, algum tempo depois, perdem o bebê por alguma complicação pelo nascimento prematuro dele, como foi o caso da Renata e de seu marido Miguel. Para eles, o pequeno Caio veio ao mundo como um grande presente de Deus, uma dádiva em suas vidas.

A espiritualidade foi um fator que ajudou o casal a passar por aquele momento. Foram vinte e seis dias de vida e para eles, cada dia era decisivo no processo de melhora do filho. No momento de ir pra casa, de deixar para trás a incubadora, o aperto no peito.

            "Tu não está sozinho... és parte de nós e a melhor parte."

Hoje, o sentimento de Renata e Miguel é de conforto, de que os dias mais difíceis passaram.     

            "Sentimos muita falta da presença física do nosso filhote e da infinidade de sonhos que tínhamos para viver com ele. Acreditamos que isso vai nos acompanhar sempre, pois não é algo que se supera - a partida de um filho. O que temos feito é seguir com tudo isso, com todas as marcas que o Caio deixou em    nós, com o coração cheio de saudade, amor e gratidão por tudo que nos foi    permitido viver."

Mas sempre existe a hora de recomeçar, a vida é feita desses recomeços. Foi assim que, em 2016, quando o casal se mudou para Belo Horizonte, um presente inundou seus corações de alegria: uma nova gestação estava se iniciando e, ao lado do obstetra Dr. Renato Janone, do Núcleo Bem Nascer, eles trouxeram ao mundo a pequena Alice, bebê arco-íris que trouxe ainda mais cor e vida à família.

Vivendo os altos e baixos da vida, os papais e mamães que tiveram perdas gestacionais ou neo natais carregam com si a bonita lembrança e o aprendizado imenso que suas crianças lhe proporcionam. E melhor do que isso: com a ajuda de um bom profissional, seguir em frente se torna uma tarefa possível, que os fazem enxergar que tudo que um dia foi cinza se tornará um belíssimo e colorido arco-íris.