Intervenções no parto

Você sabe o que é Manobra de Kristeller, episiotomia, tricotomia, intervenções rotineiras na assistência obstétrica no Brasiln e questionadas pelos movimentos pela humanização do nascimento, pela Organização Mundial de Saúde - OMS? A enfermeira obstetra, Kelly Borgonove, explica estas e outras intervenções e conceitos inerentes à humanização do nascimento em materia publicada pelo Jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte. A enfermeira obstetra trabalha no Hospital Sofia Feldman e do Hospital das Clínicas da UFMG e integra a diretoria da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo-Nacional). Na matéria, Kelly Borgonove enumera quais são as intervenções mais comuns realizadas nas maternidades brasileiras e que interferem no processo fisiológico de dar à luz.

" Episiotomia Corte que se faz entre a vagina e o ânus para, em tese, facilitar a saída do bebê durante o parto, a episiotomia não deve ser realizada de forma rotineira. Para se ter ideia de como a prática é comum no Brasil, esse corte no períneo da mulher é realizado em 53,5% dos partos normais, frente à recomendação de 10% da OMS. “A realização da episiotomia de rotina foi propagada no início do século passado. A ideia, defendida por alguns profissionais mesmo nos dias atuais, é que o procedimento preservaria o assoalho pélvico. Essa alegação, no entanto, não se sustenta, visto que a própria episiotomia é uma ‘laceração’ de segundo grau. Em um grande número de partos, quando não realizada a episiotomia, o que se constata são pequenas lacerações de melhor prognóstico e até mesmo períneos íntegros”, afirma Borgonove.

» Manobra de Kristeller Proibida em alguns países, a Manobra de Kristeller ainda continua sendo realizada em muitas maternidades brasileiras. A técnica consiste em utilizar força física para empurrar o bebê para fora do útero. “Essa manobra pode trazer graves consequências. Para a parturiente, existe o risco de rotura e inversão uterina, que podem provocar hemorragias graves, com risco de morte e descolamento prematuro de placenta, entre outros. Para o feto, pode haver lesões de órgãos internos, aumento da pressão intracraniana, com possibilidade de hemorragias e cefalohematoma ou mesmo paralisia por lesão dos nervos que controlam os movimentos de mãos, braços e ombros”, explica Borgonove. Em Belo Horizonte, foi lançada, em outubro, a campanha ‘BH livre de Kristeller’.

» Jejum em trabalho de parto Desde 1996, o Guia Prático de Assistência ao Parto Normal da OMS já recomendava a ingestão de fluidos durante o trabalho de parto. “Não existem evidências científicas que indiquem que a ingestão de alimentos durante o trabalho de parto seja prejudicial. Pelo contrário, a recomendação da OMS é corroborada por evidências atuais, que demonstram que pode trazer benefícios. O jejum era empregado e obrigatório com a justificativa de que se a mulher precisasse de uma cirurgia haveria risco maior devido à anestesia, alegação sem embasamento científico”, esclarece a enfermeira obstetra.

» Ocitocina sintética A ocitocina sintética – hormônio que acelera as contrações durante o trabalho de parto – é uma medicação que também deve ser prescrita apenas quando há indicação. “Utilizada em algumas condições específicas, é um recurso para mulheres que precisam induzir o trabalho de parto por algum motivo clínico, como corrigir distócias de progressão do trabalho de parto ou ser usada em casos de hemorragia. Essa intervenção, como qualquer outra, deve ser discutida e acordada com a parturiente”, pondera Borgovane. Usar a ocitocina sintética de forma rotineira aumenta o risco de taquissistolia (excesso de contrações), que pode resultar em dificuldades de oxigenação do feto ou mesmo em rotura uterina.

» Posição ginecológica Para Kelly Borgovane, a liberdade de posição deve ser adotada e estimulada pela equipe que assiste a mulher. “A ciência aponta que a permissão para a parturiente escolher a posição durante a primeira fase de trabalho de parto – deambulando (caminhando) ou outras posições verticais – não oferece maior risco, promove uma maior satisfação da mulher e está associada a uma menor necessidade de anestesia e menor duração do trabalho de parto”, explica.

» Rompimento da bolsa Em algumas situações, de acordo com Borgonove, como no caso de indução do trabalho de parto, pode-se romper a bolsa para desencadear as contrações. No entanto, ainda segundo a especialista, não existe evidência científicade que a amniotomia de rotina e precoce acelere o trabalho de parto.

» Tricotomia Raspar os pelos pubianos é uma prática obsoleta, mas que ainda é realizada no Brasil. “A OMS considera a tricotomia como prática prejudicial ou ineficaz. O protocolo está muito relacionado com a ritualística que se criou em torno do parto normal no hospital e com a crença de que seu uso rotineiro reduziria o número de infecções no puerpério. Porém, as evidências atuais são insuficientes para apoiar tal crença, já que revisão sistemática recente demonstrou que não houve diferença em morbidade febril ou infecção de ferida perineal”, afirma Kelly Borgovane.

» Violência obstétrica Ainda rechaçada frequentemente pela comunidade médica, em agosto deste ano, a OMS mapeou tipos de violência obstétrica, com o objetivo de identificar e prevenir essas ocorrências nos serviços de saúde. Entre elas estão abuso físico, sexual e verbal, preconceito e discriminação, não cumprimento dos padrões profissionais de cuidado, mau relacionamento entre as mulheres e os prestadores de serviços e condições ruins do próprio sistema de saúde... a ideia de violência obstétrica está geralmente atrelada à violência física com procedimentos dolorosos, sejam eles o excesso de exame de toque durante o trabalho de parto ou a anestesia da cesariana que não pegou.

» Midwife O interesse pela vida da realeza britânica e, consequentemente, pela cobertura midiática em tempo real dos dois partos de Kate Midleton trouxe para o Brasil a discussão sobre o papel da enfermeira obstetra no cenário do nascimento. Por lá, o termo usado é midwife (parteira, em tradução livre). O que é importante saber é que a enfermeira obstetra é uma profissional tecnicamente capacitada para prestar um cuidado seguro e de qualidade às gestantes sem complicações. “O parto em gestações de baixo risco, fisiológico, precisa de cuidado, que é a base da nossa profissão”, afirma Kelly Borgonove".

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