Alice (Renata e Miguel)

 

Esperando por Alice

Entendemos que o trabalho de parto e o parto em si constituem-se num pedaço de uma caminhada que se inicia antes mesmo da gestação. Lá onde no plano de nossos desejos já sonhamos em ser pais.

Alice é nossa filha caçula, nossa bebê arco-íris – denominação do filho ou filha que vem depois de uma perda. Esta metáfora tão linda vem para nos mostrar que passado a tempestade é possível viver outros tempos, mais coloridos, leves e felizes. Contar sobre a chegada da Alice é também falar do Caio, nosso primeiro filho, que teve uma passagem breve e intensa por aqui. Caio foi fruto de uma gestação desejada, planejada e repleta de saúde. Ele nasceu com 23 semanas e quatro dias de gravidez, após um inesperado sangramento que rapidamente evoluiu para um trabalho de parto extremamente prematuro. Durante 26 dias, acompanhamos sua luta pela vida na UTI neonatal e fomos presenteados por muitos ensinamentos que reverberam até hoje em nós. Caio nos deixou encharcados por uma grande potência de vida. Não temos dúvida que isso nos ajudou a seguir e nos abrir para acolher uma nova vida.

Nos preparamos para receber Alice por quase um ano depois do nascimento de Caio. Nesse tempo, além de nos fortalecermos emocionalmente, fizemos uma investigação médica com o intuito de encontrar respostas para o que havíamos passado com Caio e maior confiança para encararmos uma futura gravidez. Em seguida, nos mudamos para Belo Horizonte. Era a vida sinalizando o novo que estava por vir.

Logo que descobrimos a nova gestação, buscamos indicações de médicos que trabalhavam numa perspectiva de parto humanizado. Apesar de demandarmos um pré-natal de alto risco, desejávamos viver a gravidez da Alice com muito cuidado, respeito e, sobretudo, de forma ativa, especialmente, na via de parto. Pretendíamos um parto com menos intervenções possíveis. Nossa escolha certeira se deu pelo Dr. Renato Janone do Núcleo Bem Nascer que nos acompanhou com extrema disponibilidade, competência técnica, trazendo uma leveza necessária à nossa caminhada.

Tínhamos muito medo de levar uma rasteira como na gravidez de Caio. Às vésperas de completar 23 semanas, fizemos um procedimento para ajudar na sustentação do peso da gestação. A cerclagem constitui-se em dois pontos dados no colo do útero que são retirados na 37ª semana, possibilitando que o bebê nasça a termo e de parto normal ou natural. A partir da cerclagem, fizemos repouso e passamos a vibrar por cada semana que Alice crescia no ventre. Não foi nada fácil. O repouso descansa o corpo, mas a cabeça não para! Assim, na metade final da gravidez, contamos também com o apoio da psicóloga do Núcleo Bem Nascer Renata Duailibi que muito contribuiu para vivermos a gestação da Alice de outro modo.

No dia 25/01/2017, foi retirada a cerclagem e aberta a possibilidade de nascimento a termo da Alice. Fomos para a consulta cheios de expectativa (inclusive de que ela nasceria assim que fossem retirados os pontos!) e com o plano de parto pronto – Maternidade da Unimed, parto na banheira, sem anestesia, ... Hoje damos muita risada lembrando disso... Por isso que chama “plano” de parto...

O trabalho de parto e seus imprevisíveis

Alguns dias depois, em 06/02/2017, com 38 semanas e 4 dias, recordo de minha mãe dizendo logo cedo que percebeu minha barriga “mais baixa”. Passei uma manhã tranquila, sem sinais da vinda de Alice. Mandei mensagem para doula Vanessa Aveline dizendo “ainda temos um bom tempo pela frente”.

Quando estava almoçando, senti como se algo tivesse se soltado dentro da minha barriga, mas sem dor. A ida ao banheiro constatou que o tampão mucoso começava a sair. Minha mãe ajudou a identificar. Sabíamos que era o primeiro sinal que Alice estava a caminho, mas que poderia levar dias para o seu nascimento.

No entanto, às 15:00 iniciaram as contrações fortes. Falei com Dr. Renato e recordo dele me dizer “não é assim pra menino nascer... Estou no Hospital das Clínicas de plantão. Qualquer coisa, pode vir que te avalio e, se for o caso, vamos para a maternidade”. Em 20 minutos, as contrações ritmaram, passando a vir a cada 10 minutos. Miguel, meu marido e pai da Alice, trabalha em Ouro Branco (cerca de 85 km de BH) e foi avisado assim que o trabalho de parto engrenou: “vem!”.

As malas estavam prontas há duas semanas – roupas e inclusive comidas para o tão esperado momento. Não sei o que houve, mas minha mãe e eu chamamos um táxi e levamos apenas uma mochila com documentos, absorvente e o plano de parto! Avisei o médico no caminho, por mensagem, que estava indo ao HC ser avaliada. O taxista foi avisado que eu estava em fraco trabalho de parto. Desse modo, fizemos o trajeto entre a Vila da Serra e o HC em menos de 15 minutos com direito à muito pisca alerta, buzina e alta velocidade nos corredores de ônibus! Naquele momento, as contrações já estavam vindo num intervalo de cinco minutos com duração de uns dois minutos cada.

Finalmente, chegamos no HC! Entretanto, para nossa surpresa (ou quase desespero!) não conseguíamos encontrar o Dr. Renato! Meu telefone não tinha sinal e, pelo visto, o dele também não. As contrações estavam intensas! Eu quase não conseguia caminhar. Sentei no saguão do hospital e, enquanto tomava fôlego a cada contração que vinha, tentava contato com Renato. Minha mãe corria nos guichês de atendimento para fazer nossa ficha, conseguir uma cadeira de rodas pra mim e na busca por informações do médico. Naquele momento, eu me senti numa novela. Ria daquela situação tão inusitada, tão longe do que estava descrito (e esperado) no plano de parto e passava as coisas mais absurdas na minha cabeça – estava tudo tão demorado e doído que tive uma vontade louca de me atirar no chão e gritar “eu tô parindo!!!! Encontrem meu médico!!!!”.

Antes de eu cometer essa loucura, minha mãe apareceu com a cadeira de rodas, e seguimos em busca do Renato. As contrações cada vez mais fortes e frequentes. Pouco antes de encontrarmos ele, pedi para minha mãe parar a cadeira porque estava com muita dor. Quando encontrei o Dr. Renato, as contrações já estavam vindo a cada dois minutos!!!! Ao deitar na cama para ser examinada, minha bolsa estourou. O médico sugeriu que fôssemos para a Maternidade Santa Fé por ser mais próxima e devido ao horário (detalhe: era uma segunda-feira chuvosa de retorno das férias escolares, cerca de 17h30!!!). Eu topei, apesar de não ser nossa primeira opção. Tudo já estava tão diferente do que havíamos imaginado!

Lá fomos nós – Dr. Renato, minha mãe e eu – de táxi rumo ao Santa Fé. Ficava imaginando aquelas ruas com paralelepípedos do entorno do hospital... Será que conseguiria chegar lá antes de Alice nascer? E Miguel, onde estaria naquela hora? Do caminho, tenho algumas lembranças – do trânsito que pouco andava, das contrações fortes, do líquido que encharcava o banco do táxi, do médico perguntando se eu queria ir pra suíte ppp (pré-parto, parto e pós-parto) ou para o bloco. “São caminhos diferentes”, dizia ele, “precisamos fazer essa escolha”.

Foi difícil tomar a decisão sem Miguel, com dor e num contexto radicalmente diferente do planejado. Em meio àquele trabalho de parto tsunâmico, decidi que iria para o  bloco e tomaria anestesia. Precisava ficar mais tranquila para receber Alice e sabia que seria um parto cuidadoso, mesmo no contexto do bloco cirúrgico.

Chegamos no Santa Fé às 18h15, depois de uma acelerada do taxista provocada pela seguinte fala do Dr. Renato: “aqui tem tudo que você precisa para Alice nascer – tem eu -  médico - você e Alice”. Depois disso, o taxista percebeu que havia uma bebê quase nascendo e se apressou o máximo possível (quase bateu o carro!).

            No bloco cirúrgico, fui examinada e já estava com 9 para 10 cm de dilatação! Sim! Alice quase nasceu no táxi a caminho da maternidade! Logo depois de tomar a anestesia, senti um alívio muito grande e a desaceleração do trabalho de parto. Só havia eu no bloco aquela noite o que possibilitou um atendimento bem pessonalizado da equipe do hospital. Minha mãe esteve o tempo todo comigo, o médico me falava tudo o que estava acontecendo – efeitos da anestesia, doula e Miguel a caminho – e tornou o bloco um ambiente bastante acolhedor – pouca luz, ar condicionado desligado, playlist (bem roqueira, diga-se de passagem!) e um clima leve.

            Fiquei deitada por cerca de uma hora e meia, tomando fôlego para o expulsivo que estava por vir. A doula Vanessa e Miguel chegaram praticamente ao mesmo tempo junto com a reavivada do trabalho de parto (umas 19h45). Foi autorizado que minha mãe estivesse conosco no bloco. Levantei e comecei a intercalar banquinho, bola e um pouco de caminhada. Sentia muita dor, principalmente ao caminhar. Sentada no banquinho com Miguel me apoiando atrás foi a posição em que encontrei maior conforto. A cada contração fazia muita força e sentia Alice cada vez mais perto. A sala estava muito quente não sei se era o auge do verão ou o calor da expectativa por conhecermos Alice de pertinho.

            Pensava em Caio, na sua força e valentia, e também nas mulheres paredeiras de minha família. Minha mãe que passou por três partos normais, minha irmã Ju que teve um parto normal após uma cesárea e minhas avós que pariram quase dez filhos em casa. Contar com o olhar de minha mãe, as mãos de Vanessa que me segurou a todo momento, os braços de Miguel e as palavras de incentivo do dr. Renato foram fundamentais para o nascimento de Alice.

Nascimento e renascimentos

Lembro de dois momentos muito importantes que antecederam o nascimento da Alice. Minha mãe, que não sei como, se mantinha em silêncio, disse: “ela está aqui! Eu já tô vendo ela!”, e Miguel que pediu para eu tirar a camisola porque queria se despedir da barriga.

Hoje, passados pouco mais de cinco meses do nascimento de nossa filha, fecho os olhos e consigo lembrar da sensação dela escorregando de dentro de mim, do seu corpinho quente e molhado, da alegria quase indescritível com que a recebi nos meus braços. As primeiras palavras que escutou de mim foram: “seja bem-vinda minha filha! Conte comigo!”

 Alice nasceu às 21h57, ao som de um rock progressivo (Renaissance – Spare some love) com todo cuidado, respeito e amor! É comum escutarmos que, quando nasce um bebê, nasce também um pai, uma mãe, avós, tios... Sim! E na nossa história, o nascimento da Alice trouxe consigo os nossos renascimentos. Possibilitou a reconciliação com meu próprio corpo, a confiança na capacidade de gerar, parir e cuidar. Caio, nossa estrelinha, trouxe luz e Alice, nosso arco-íris, veio para colorir nossas vidas.

Mais uma vez, aprendemos o quanto a vida é cheia de imprevistos, surpresas e daquilo que é ingovernável. O trabalho de parto e o parto da Alice foram uma pequena amostra disso. O plano é importante até para ajudar a conter um pouco da ansiedade que cerca a chegada de um filho e uma filha, mas da experiência em si pouco sabemos como será e nenhum controle temos. O que não pode faltar é apoio, cuidado, respeito e amor para vivermos esse momento como tiver de ser. Para nós, apesar de ter sido bem diferente do esperado, foi muito bonito e especial!