Diana (Letícia & Marcos)

Sobre a minha experiência de liberdade em um parto natural na maternidade:

No dia 13 de abril eu pari, feliz da vida.
Três semanas antes já vinha sentindo dores fortes o suficiente para me acordar de madrugada, mas eram ainda os incríveis pródromos, preparando meu corpo para o grande evento. Graças às trocas de ideia com minhas amigas doulas Paula Miranda e Alice Leão (que tinha ganhado seu Bem pouco tempo antes), em conversas com outras mulheres no grupo de yoga para gestantes Garbhini KY, e no universo paralelo da Internet, eu sabia do que se tratavam aquelas dores intermitentes, e assim não saí voando pro hospital antes da hora, e não corri o risco de receber o famoso "diagnóstico" que os cesaristas de plantão adoram, o de que não houve dilatação suficiente do colo do útero, impossibilitando o parto por via vaginal. 

Apesar do semblante calmo (o Marcos vai negar isso), minha ansiedade nos últimos dias da gravidez atingia picos estratosféricos, principalmente porque desde a 20a semana de gestação eu já sabia das inúmeras intercorrências que poderiam acontecer a qualquer momento, devido ao fato de minha filhota ter tido CIUR (crescimento inteauterino restrito), sem nenhuma explicação. Eu, que tanto sonhava com um parto natural, estava sofrendo pela possibilidade de cair na faca sem entrar em trabalho de parto. O que me salvou foi o apoio do meu amor, Marcos, daquela galera que eu citei acima, e do médico que passou a me acompanhar no fim da gravidez, dr. Renato Janone (para ele era óbvio que eu ia ter parto normal). A cesariana, embora já tivesse sido sugerida - de maneira respeitosa, vale dizer, por outro médico também muito querido e competente - como medida de precaução, seria afinal uma opção apenas em caso de emergência, decorrente de algum problema que poderia explodir como uma bomba, justificando finalmente o tal do CIUR (cujo motivo até hoje não se sabe). Fora isso, o que poderia ser necessário, chegando às 41 semanas, seria a indução do trabalho de parto por hormônio sintético introduzido na vagina a cada 3 horas que, segundo me disseram, pode demorar muito mais, doer muito mais, fazer as contrações serem menos espaçadas umas das outras e, o pior, pode não funcionar, levando irremediavelmente a uma cesariana. Para não ter que passar por isso, me aconselharam eliminar da dieta a farinha branca e o açúcar, com o intuito de facilitar o trabalho de parto espontâneo, mas eu, no auge da ansiedade, enfiei a cara no macarrão e no chocolate (sem leite). Pronto, pensei: assim eu acabo de traçar por minhas próprias mãos meu cruel destino na mesa de cirurgia. Mas não queria isso de jeito nenhum, então segui com minha novela, sofrendo e esperando pelo último capítulo. 

O dia 06 de abril (data provável do parto) chegou, e meu mais novo e amado médico, dr. Janone, teve que partir para uma aventura na terra do Mickey Mouse com sua filha (do que ele já havia me avisado). Me senti ainda mais insegura, tendo que agendar consulta de pré-natal com um terceiro médico àquela altura do campeonato. Foi naquela semana que conheci o dr. Sandro Ribeiro, indicado pelo dr. Janone, em seu consultório na Maternidade Santa Fé, onde eu havia escolhido parir caso entrasse em trabalho de parto. Ele me atendeu com um sorriso delicioso, escutando uma musiquinha, todo fofo, todo calmo e seguro, e me deixou tranquila, apostando, assim como o dr. Janone, que eu era uma parideira. Por via das dúvidas, agendamos uma consulta pro dia 12 de abril, um dia antes de eu completar 41 semanas de gestação, e foi então nesse dia, pela manhã, que ele fez o descolamento da membrana da bolsa das águas (o que às vezes acontece naturalmente, até durante uma caminhada), um processo mecânico de indução do trabalho de parto que faz o corpo liberar um hormônio x, que por sua vez estimula o início das contrações. Doeu um bocadinho, mas foi rapidinho, e só foi possível porque eu já estava com 2cm de dilatação (!). 

Voltei pra casa um tanto otimista e um outro tanto ansiosa. Mais tarde, minha doula comadre irmãmiga maravilhosa Paula Miranda veio me visitar. Ela, que já tem um filhote e está grávida do segundo, sabia bem como eu estava me sentindo, ainda mais porque nas noites anteriores ela me ligava e eu sempre a atendia aos prantos, fazendo o maior drama. Quando ela passou pela porta de entrada eu juro que avistei umas asas brancas enormes saindo de suas costas. Ela se sentou comigo, ouviu meus lamentos, e me receitou uma vitamina que era o último dos recursos para as parideiras desesperadas. Uma mistureba bombástica que reunia creme de amendoim, laranja, tâmaras secas e, pasmem, óleo de rícino, um poderoso laxante natural. Morrendo de medo, segui suas ordens e tomei a bendita vitamina que era repartida em três doses. Às 22:30h deste mesmo dia, 12 horas após o procedimento no consultório do dr. Sandro, e apenas 4 horas após ter tomado a primeira dose da superultramega vitamina de óleo de rícino (não cheguei a tomar a terceira dose), começaram as contrações super intensas e ritmadas, de 4 em 4 minutos. Era o início da melhor dor que eu já senti na vida, a dor de saber no meu próprio corpo que minha filha ia vir à luz! 

Depois de uma hora marcando as contrações, acordei o maridão, fui ao banheiro fazer xixi (quando percebi que escorria um líquido transparente pelas minhas pernas, ou seja, a bolsa das águas havia rompido), arrumei as tralhas, avisei ao dr. Sandro e a Paula e, aí sim, voamos pro hospital. Chegamos à Maternidade Santa Fé por volta da meia noite, e dr. Sandro fez o exame de toque às 00:30h constatando uma dilatação de 5cm. Subi pra suíte PPP (pré e pós parto) já sentindo uma dor considerável, e fiquei um pouco sozinha, enquanto o Marcos e o dr. resolviam questões de ordem prática e burocrática, e a Paula vinha nos encontrar (ela saiu de Raposos). 

Foi então que no chuveiro eu vivi o momento que chamei de "Eu, a Rocha Ancestral, e os Escrementos": a dor das contrações foi aumentando rapidamente, e parecia se misturar com uma dor daquelas de diarréia. Tiro e queda, caguei (defequei, se preferir) e vomitei à vontade, e quando vinham as contrações eu me agarrava, e esmurrava, e forçava a testa contra uma divisória de granito (a Rocha Ancestral) que havia na frente do chuveiro. Cena de filme (de terror). Passaram alguns minutos e eu já estava na famosa partolândia (e o dr. Janone lá na Disneylândia, hehehe). Não me lembro com detalhes do que veio depois disso, é como se tivesse uma amnésia alcoolica, só me vêm pedaços de memória, exceto pela dor intensa que lembro ter sentido dali em diante, uma dor que nunca antes eu tinha experimentado, me dando o direito de me jogar no chão e emitir sons animalescos. A Paula tinha chegado, o Marcos e o dr. Sandro também estavam comigo, e ficamos os quatro mosqueteiros imersos naquela experiência, sob uma luz azulada e o silêncio da madrugada. Meus olhos mal se abriam, eu apertava com força a canela de quem aparecesse na minha frente no momento das contrações, e agradecia aliviada por cada intervalo entre as dores. Era como o mar, eu era o mar, e as contrações eram as ondas. 

A Paula não desgrudava mais de mim. Me disse coisas lindas, me encorajou, me fez massagem com o óleo essencial mais cheiroso do mundo, ouviu meus berros sem fazer cara feia e, assim, sua presença foi fundamental, determinante, para que eu seguisse meu processo naturalmente, sem pedir socorro pro anestesista de plantão. Minha doula comadre irmãmiga amada foi minha analgesia humana. Meu companheiro ficou quietinho, pousando seu olhar calmo sobre mim, sendo também muito importante naquela hora, emanando carinho e me incentivando, com sua doçura forte, a ter coragem de parir nossa filha. E o dr. Sandro vestiu a capa da invisibilidade, que só tirava quando era realmente necessário. 

Em algum momento eu entrei na banheira, mas, calorenta que sou, achei a água muito quente. Era engraçado porque eu queria ficar na banheira, mas aquela água quente me deixava mole, igual a quando em pleno verão eu entrei pela primeira vez no mar da Bahia e achei que estava nadando em uma sopa. Nisso, eu saía e voltava pra banheira o tempo todo (eu acho, porque na verdade não lembro muito bem), rolava no chão (talvez eu só agachasse mesmo), me enfiava no chuveiro frio, e tive a "brilhante ideia" de deitar na maca, porque pensei que o lençol devia estar geladinho. Foi chegar uma contração para eu constatar o quanto minha ideia tinha sido péssima. Ali eu vi o quanto é violento obrigar uma mulher a parir deitada. A contração doeu 3 vezes mais do que quando eu estava em outras posições, como agachada ou de pé. Saí dali rapidinho e comecei a achar que não ia dar conta. Perguntei pra Paula se ainda ia doer mais do que já estava doendo, ela me disse que talvez, caso ainda não tivesse dilatado até pelo menos 8 cm, e eu quase chorei. Mas ela disse que eu estava indo muito bem, e que ia aguentar sim. Acreditei nela. 

Passou um pouco, dr. Sandro pediu para realizar o segundo exame de toque, eu permiti e, tcharam! Estava com 9cm! Me senti como quem acha uma nota de cem no meio da rua, eu era a mulher mais sortuda do mundo - ou pelo menos daquele bairro, eu estava prestes a ter minha filha em meus braços! De repente veio aquela vontade louca de cagar (defecar), mas não era isso, eram os famosos puxos! Neste momento a dra. Alessandra Cotta já havia chegado para dar respaldo ao dr. Sandro no caso de aguma intercorrência. Eu entrei na banheira, fiz uma força descomunal, gritei como quem está sendo exorcizado (segundo Rafael Rocha), e senti apontar pela minha vagina a cabeça da minha neném! Doeu muito! Lamuriei no ouvido da Paula, ela me acalmou, segui em frente. Alguns minutos depois, outra força, mais um grito à la O Exorcista, e eis que chegou o momento mais aguardado pelos telespectadores: nasceu a minha Diana! Minha pequena chegou saudável e fitness, com 41 semanas, e pesando 2930g, não teve nada daquilo que disseram que poderia rolar pelo fato de ela ser PIG (pequena para idade gestacional), como hipoglicemia, sofrimento fetal por não suportar o trabalho de parto, e etc. Fiquei feliz demais!

 

Graças ao maridão maravilhoso, que teve a destreza de filmar a cena, hoje eu sei que a primeira coisa que eu fiz depois de pegar minha boneca no colo e deixar ela mamar, foi perguntar as horas, pra fazer o mapa astral. Cena patética. Eram 03:19h de uma quinta-feira de lua cheia. A dor foi embora, eu senti, como quem toma um coice, um amor absurdo me envolvendo, e ao mesmo tempo, uma força enorme, que me deixava pronta para proteger minha cria de todas as mazelas do mundo. Esperamos um pouco, Marcos cortou o cordão umbilical. Em seguida eu pari a placenta diva maravilhosa, e continuamos com nossas vidas em plenitude, e muito agraciados pela magnífica experiência. 

 

Agora um pequeno adendo:

Meu parto foi assim, com respeito absoluto às minhas vontades, em uma maternidade com boa infraestrutura, sob o acompanhamento de um excelente médico, e de uma doula maravilhosa. Acontece que parir assim é um privilégio.
O parto como dizem, humanizado, nada mais é do que um parto que acontece com respeito à parturiente e à criança, o que parece simples e óbvio, mas em nossa sociedade doente, é um privilégio. E se o nascimento, via de regra, já é uma grande violência, um verdadeiro trauma, o que será dos nascidos e de suas famílias? Obviamente que não há uma solução simples para a série de problemas estruturais da sociedade capitalista que, entre outros tantos, culmina no problema da violência obstétrica generalizada. Há diversas medidas urgentes a serem tomadas por nós enquanto seres que habitam as terras e as águas - e precisam das terras e das águas para perpetuar a própria espécie e preservar as demais, e os movimentos sociais com suas bandeiras vermelhas estão aí para nos alertar sobre as reais necessidades de mudança, fundamentais. Porque não é suficiente comer tomate orgânico e cogumelos frescos enquanto a maioria come veneno, não é suficiente estudar numa boa escola enquanto a maioria não tem acesso à educação de fato, não é suficiente reciclar o lixo enquanto a maioria não tem onde morar, não é suficiente ler tratados filosóficos enquanto a maioria é analfabeta, e não é suficiente parir feliz na banheira sob a luz azul, enquanto muita gente não tem água pra beber, o Sofia Feldman é estrategicamente saqueado e sucateado, e a maioria das fêmeas do Brasil e do mundo dão à luz sentindo as maiores dores, físicas e emocionais, geradas por violências absurdas, e em camadas. Meu parto lindo, portanto, só não terá sido uma ilusão quando o respeito à mulher e à criança passe a ser a regra, e não a exceção.