Tarsila(Renata e Marcelo)

Em outubro de 2017, trocando a torneira do banheiro do meu banheiro, acabei machucando minha mama esquerda.  Ela inchou muito e eu procurei a primeira mastologista que tinha horário.  No consultório a médica fez uma punção pra ver se sairia pus, imagina: mama completamente inchada, dolorida e a médica enfiando uma agulha pra ver se saía pus! Fui a lua e voltei de tanta dor! Só saiu sangue. Me passou alguns exames pra fazer , ultrassom e mamografia.  Quando voltei com os resultados a médica simplesmente falou: é câncer,  mas eu conheço uma cirurgiã que tem uma mão muito boa, faz sua cirurgia e fica perfeito! Essa era a preocupação dela,  a parte estética,  em momento nenhum teve tato pra falar e pensar que essa é uma notícia que ninguém está preparado pra ouvir. Mudei de médico,  fiz 3 punçoes com agulha grossa pra retirar material pra análise. Diagnóstico: carcinoma intraductal in situ. Marquei cirurgia e dia 24 de janeiro de 2018 fiz uma quadrantectomia,  retirada de parte da mama esquerda. Recuperação difícil,  pois deu mastite, fistula,  uma cicatrização lenta e com muitos problemas.  Fiz 19 sessões de radioterapia,  1 por dia.  Sabia que com isso somando a cirurgia e mais a rádio,  a mama esquerda provavelmente não funcionaria no caso de uma gravidez.  Em consulta com oncologista foi me falado que ainda havia mais uma parte do tratamento a ser feito: 5 anos de tamoxifeno.  Remédio que causa uma menopausa precoce,  então se eu quisesse ter filho,  a hora seria aquela antes de começar o tratamento.  Eu com 40 anos não tinha tempo pra esperar, realmente o tempo corria contra mim. Resolvemos, eu e Marcelo,  ter nosso/a filho/a. Em julho engravidei! Na primeira tentativa!!! Nossa, perfeito,  meu organismo está funcionando bem, está tudo certo!!! Agora é marcar obstetra! Consegui data pra uns 2 meses depois. Médica atenciosa,  bem indicada. Me passou um ultrassom pra ver a evolução da gestação.  Estaria com 11 semanas, daria pra ver o embrião formado,  mas só havia o saco gestacional vazio. Parou na quinta semana. Não havia embrião,  a gestação não iria pra frente.  Me senti sem chão, uma sensação de impotência, de inutilidade.  Voltei ao consultório da médica que me falou pra esperar o corpo dar sinais de que iria expelir e então procurar uma maternidade pra fazer a curetagem. Ela se despediu de mim com a seguinte frase: "quando você engravidar de novo você  volta!" Sem gravidez um não servia, esse foi o recado que eu ouvi. Uma semana depois, num domingo à noite começou um sangramento e eu fui até o Santa fé pra ser atendida. Dei o azar de ser atendida por um médico que não teve a sensibilidade de entender o momento que eu estava passando e se preocupou em discutir comigo o resultado do ultrassom que eu havia feito e que mostrava uma gravidez anembrionaria. Internei, pois já estava sangrando muito e não tinha como ir pra outro hospital. O médico fez o procedimento de forma automática como se eu soubesse e tivesse a obrigação de saber como é uma curetagem . Não me explicou nada. Foi ao quarto,  introduziu o medicamento e falou: quando você estiver sentindo muita cólica,  você avise a enfermeira . Entrei às 23 de domingo, às 5 da manhã fui levada pra bloco. Falaram que assim que terminasse meu marido seria avisado. Fiquei anda 30 minutos esperando o médico chegar pro procedimento.  Sangrei muito que até a auxiliar de enfermagem se assustou. Quando o médico chegou para fazer a curetagem,  foi fazendo tudo tão  automaticamente que ele ia começar antes mesmo da anestesia. O anestesista que falou pra esperar.  Nesse meio tempo ele mexendo em mim falou: você já sangrou tanto que o saco gestacional está aqui,  e levantou segurando com uma pinça pra me mostrar.  A vontade era de levanta e ir embora,  mas não tinha mais como. Acordei na sala de recuperação, onde fiquei por mais de 2 horas pois não tinha ninguém pra me levar pro quarto. E meu marido não  tinha tido notícias minha, não sabia ao menos se eu estava viva! Quando fui pro quarto já estava quase na hora da alta. Nunca me senti tão sem valor,  pois se você entra numa maternidade sem ser pra ter uma criança,  você não tem valor. Você  falhou na sua missão. Depois disso troquei de médico umas 3 vezes pois tinha pressa e todos achavam que eu tinha que esperar sem me preocupar com prazo pra engravidar. Eu não tinha esse prazo! Fui acompanhando minha temperatura pra identificar o período fértil até que em janeiro engravidei. Com indicação do meu endocrinologista , procurei o Renato Janone pra acompanhar minha gestação que transcorreu de forma tranquila. Sem grandes preocupações percorri 41 semanas e 1 dia de forma tranquila podem curtir cada dia do barrigão! Estava esperando uma menina,  Tarsila! Que felicidade!! Montei meu plano de parto junto com meu marido e o médico,  contratei a Carol pra ser minha fotógrafa,  pois queria registrar o parto e poder rever sempre! Contratei a Lena como doula pois um apoio feminino na hora do parto, com certeza me ajudaria muito a passar da melhor forma e a viver a experiência do parto.  Esperávamos um sinal de Tarsila e nada. Ela não tinha pressa pra vir ao mundo.  Combinei com o Janone que se até a 41 semana ela não nascesse, iríamos fazer indução.  Marcamos para o dia 9/10 às 9:15 começar a indução. Na madrugada do dia 8 para p dia 9, eis que começo a ter cólicas no pé da barriga.  Mando mensagem pra Lena por volta da ms 02:40 e ela me orienta: isso é o início do trabalho de parto, tome um Buscopan e vá deitar. Tudo bem, vamos lá porque vai demorar. Nada feito! As contrações começaram com uma certa frequência,  doloridas que não me  permitiam dormir. Liguei pro médico e ele me orientou a cronometrar as contrações pra saber em qual fase do trabalho de parto eu estava e já deixei combinado que às 6:30 estaria no Neocenter pra ser avaliada. Fui pro chuveiro pra aliviar as dores que estavam cada vez mais fortes. Mandei mensagem pra Carol e ela me pediu pra avisar da avaliação que o Renato faria pra ela saber o momento de ir para o hospital. As 4hs as dores das contrações eram tão fortes que eu vomitei. Voltei pra cama e meu marido ia cronometrado as contrações e colocando bolsa de água quente nas minhas costas. Às 5hs uma contração mais forte veio junto de uma vontade de ir ao banheiro que resultou com a saída do tampão! Marcelo avisou ao médico que falou pra irmos pro neocenter que nos encontraria lá em meia hora.  Avisei a Lena que também estava pronta pra me encontrar lá.  Chegando na maternidade,  fui examinada e já estava com 9cm de dilatação! Depois de 3 semanas com 2 cm de dilatação,  tudo resolveu dilatar em poucas horas! Da maca da sala de exame mandei mensagem pra Carol : 9cm. Tarsila tinha pressa pra  nascer, no tempo dela! Fui pra suíte de parto e direto pra chuveiro.  Fiquei agachada, sentada no banquinho, em quatro apoios no chão curtindo as dores de trazer minha filha ao mundo.  

 

Nesse momento a gente vira animal, sem pudores,  com sentimento e sensações à flor da pele! Gritei,  apertei os braços da Lena que pacientemente me dava orientações quanto a respiração,  posição pra alívio da dor. Enquanto isso no quarto, Janone enchia a banheira, Carol fazia seus registros.  Eu ouvia tudo, por mais que não conseguisse  participar. Estava alerta, mas concentrada e sentindo as minhas dores.

 

 Fui pra banheira quando estava no expulsivo  e Marcelo ficou ao meu lado me dando suporte.  Depois de alguns puxos, consegui sentir a cabeça e os cabelos de Tarsila!! Que sensação!! Ela estava vindo e de dentro de mim!! Que sensação maravilhosa! Mais alguns puxos e lá estava Tarsila nos meu braços!! Não chorei, como imaginava que iria fazer, a adrenalina estava muito alta. Ver minha filha nos meus braços era quase inacreditável!! Depois de tantas provas eis a recompensa! Tudo valeu à pena,  nada era mais importante do que aquele momento. Tudo se justificava e perdia importância: eu consegui! Tive a gestação tranquila, um trabalho de parto rápido, um sonho! 41 semanas e 1 dia pra conhecer a pessoa mais importante da minha vida!